O Jogo do Bicho é uma prática informal que, mesmo ilegal desde 1946, segue viva no imaginário e nas ruas do Brasil. Criado no final do século XIX, ele resistiu ao tempo graças à sua simplicidade, estrutura intuitiva e forte presença na cultura popular. E uma das características mais marcantes desse jogo é a forma como números e animais se conectam em uma tabela padronizada, utilizada até hoje.
Neste artigo, vamos explorar em detalhes como essa associação foi construída, como ela funciona, quais são os 25 grupos de animais, porque essa lógica é tão funcional e o que mantém o Jogo do Bicho como uma das práticas de aposta mais enraizadas no país.
O Jogo do Bicho surgiu em 1892, criado por João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Na época, o Barão buscava uma maneira criativa de aumentar o público do seu Jardim Zoológico e teve a ideia de sortear prêmios com base em imagens de animais. Cada bilhete de entrada vinha com a figura de um bicho, e no final do dia era realizado um sorteio: quem tivesse o animal sorteado ganhava um prêmio.
O sucesso foi imediato. Com o tempo, o sistema se expandiu para fora do zoológico e passou a incorporar um modelo numérico que daria base ao formato que conhecemos hoje: 25 grupos de animais, cada um representando quatro dezenas consecutivas — de 00 a 99.
A estrutura do Jogo do Bicho é engenhosa e simples. Os 100 números possíveis, de 00 a 99, são divididos igualmente entre os 25 grupos. Cada grupo corresponde a um animal e a uma sequência de quatro dezenas. Veja como isso funciona:
Grupo 1 – Avestruz: 01, 02, 03, 04
Grupo 2 – Águia: 05, 06, 07, 08
Grupo 3 - Burro: 09, 10, 11, 12
Grupo 4 - Borboleta: 13, 14, 15, 16
Grupo 5 - Cachorro: 17, 18, 19, 20
Grupo 6 - Cabra: 21, 22, 23, 24
Grupo 7 - Carneiro: 25, 26, 27, 28
Grupo 8 - Camelo: 29, 30, 31, 32
Grupo 9 - Cobra: 33, 34, 35, 36
Grupo 10 - Coelho: 37, 38, 39, 40
Grupo 11 - Cavalo: 41, 42, 43, 44
Grupo 12 - Elefante: 45, 46, 47, 48
Grupo 13 - Galo: 49, 50, 51, 52
Grupo 14 - Gato: 53, 54, 55, 56
Grupo 15 - Jacaré: 57, 58, 59, 60
Grupo 16 - Leão: 61, 62, 63, 64
Grupo 17 - Macaco: 65, 66, 67, 68
Grupo 18 - Porco: 69, 70, 71, 72
Grupo 19 - Pavão: 73, 74, 75, 76
Grupo 20 - Peru: 77, 78, 79, 80
Grupo 21 - Touro: 81, 82, 83, 84
Grupo 22 - Tigre: 85, 86, 87, 88
Grupo 23 - Urso: 89, 90, 91, 92
Grupo 24 - Veado: 93, 94, 95, 96
Grupo 25 - Vaca: 97, 98, 99, 00
![]() |
Grupos, animais e números do Jogo do Bicho.
Essa lógica cobre todos os dois últimos dígitos possíveis de qualquer número, permitindo que o jogador identifique a que animal pertence qualquer dezena, centena ou milhar. Por exemplo, o número 3461 termina em 61 e, portanto, está no grupo do Leão. O mesmo vale para 0064, 1563, 4062 — todos são “Leão”.
Essa organização não apenas facilita o entendimento e a aposta, mas também é seguida por todo o país, reforçando o caráter tradicional e padronizado do jogo.
Um dos motivos para a longevidade do Jogo do Bicho está na variedade de apostas possíveis. O jogo é dividido em diferentes modalidades, com graus variados de complexidade e retorno:
Por exemplo: se você apostar na milhar 2861, estará implicitamente apostando na dezena 61 (grupo Leão). Isso significa que essa milhar pode te premiar também em outras faixas de acerto, dependendo do resultado do sorteio.
LEIA TAMBÉM: 10 Curiosidades Sobre o Jogo do Bicho.
O sistema de associação entre números e animais funciona porque é lógico, completo e fácil de memorizar. Dividir os 100 números possíveis entre 25 grupos de quatro dezenas cada permite:
Isso cria uma base de confiança no jogo, algo fundamental para a popularidade dele, mesmo à margem da legalidade.
Muito além de um jogo de números, o Jogo do Bicho está profundamente ligado ao imaginário popular. Em muitas regiões do Brasil, os números são escolhidos com base em sonhos, intuições ou experiências pessoais.
Existe até mesmo uma tradição oral (e alguns livretos populares) que associam acontecimentos oníricos a animais específicos. Por exemplo: sonhar com queda pode indicar o grupo do macaco. Sonhar com dentadura pode sugerir o grupo do jacaré. E assim por diante.
Essas relações simbólicas reforçam o aspecto emocional e supersticioso do jogo, tornando-o quase ritualístico em algumas comunidades.
LEIA TAMBÉM: Maiores lendas sobre o Jogo do Bicho.
Apesar de ilegal, o Jogo do Bicho é praticado amplamente no Brasil. Em estados como a Paraíba, chegou a ter momentos de regulamentação parcial. Em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, o jogo movimenta diariamente milhões de reais em apostas informais.
O mais curioso é que a tabela de animais e dezenas permanece praticamente a mesma em todo o país, com raras variações. Isso mostra a força da padronização e o quanto essa estrutura é eficiente. Mesmo sem regulação oficial, o Jogo do Bicho segue um modelo estável e respeitado entre seus apostadores.
O Jogo do Bicho é um fenômeno brasileiro que transcende sua condição de jogo ilegal. Ele é um reflexo da criatividade, da simplicidade e da simbologia popular que atravessa gerações. Sua estrutura de associação entre números e animais não é apenas funcional, é parte da nossa memória cultural.
Com uma lógica clara, cobertura total de dezenas, formas variadas de aposta e uma conexão emocional com o público, ele continua sendo, para muitos, mais do que uma aposta: é uma tradição. Saber como os números se relacionam com os bichos é entender um pouco da alma brasileira, onde o jogo, o sonho e a sorte se encontram todos os dias.